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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A farsa de Matarraque


Está a decorrer em Matarraque, Cascais, um "concurso" para uma pintura que é suposto "dinamizar a arte urbana e os artistas locais do Concelho" promovido por uma dita "comissão de moradores", com o apoio da Câmara Municipal de Cascaisque é uma total exploração, um desrespeito para com os Artistas, uma absoluta incompreensão do real valor de uma Obra de Arte. 

A ignorância é corrosiva, não se pode tomar parte nela, exige o máximo afastamento!

Este é um exemplo que merece reflexão, na medida em que se trata de mais um, de apenas mais um (!) dentre muitos e frequentes casos que expressam bem o atraso intelectual atávico que devasta o nosso país. A falta de investimento em Cultura não passa apenas pelos "políticos", exige alguma noção do ridículo por parte de moradores que são, em suma, cidadãos comuns como somos todos nós. 

Quem participar nesta aldrabice, estará a subscrever a opinião de que a Arte não merece que se viva dela, não carece de respeito, de investimento. Quem "concorrer", pois que não se queixe quando no futuro desejar dedicar-se profissionalmente à Arte, mas nesse momento dar-se conta de que há sempre alguém a desvalorizar o mercado, a fazer trabalho de borla (tal como esse alguém terá feito agora). Quando alguém trabalha grátis, para além de outras consequências nocivas, está a tirar o lugar ao profissional em que um dia poderia vir a tornar-se.

Não há dinheiro, não há progresso. Em Portugal a Cultura fica sempre pelo desenho incompleto. E não saímos do círculo vicioso: a despreparação geral que consiste numa má educação visual, têm aqui a sua origem, porque enquanto fruidores contentamo-nos com a impostura alegórica, e esta, por sua vez, impõe-se à força da repetição, o que leva à anestesia geral do olhar crítico e culturalmente sustentado, que assim não desenvolve o seu necessário grau de exigência e torna a aceitar (e a promover) a insuficiência artística.

E ainda há quem se espante quando constata que muita gente cheia de talento acaba por abandonar uma promissora carreira artística porque teve de ir trabalhar para o McDonald's ou a TelePizza!...

Caros Amigos, se alguém vir uma boa razão (UMA ÚNICA QUE SEJA!) para se participar num tal concurso promovido em Matarraque com o apoio da Câmara Municipal de Cascais, por favor esclareça-nos. 

Ora vejamos: não pagam o trabalho. Nem sequer dão tintas. Oferecem...? Sim, oferecem a sua magnânima aprovação, através de um Júri culturalmente preparadíssimo (um elemento da comissão de moradores, outro da Câmara e outro de uma empresa privada que faz o favor de ceder a parede atualmente suja e a precisar de pintura). Se der para o torto, por exemplo alguém rabiscar por cima do teu trabalho, reservam-se o direito de destruírem eles próprios todo o resultado do teu empenho, dizem que, assim sem mais, vão cobrir tudo de branco e cinzento (e lá se vão as tuas tintas). Ainda por cima és obrigado a ceder totalmente os direitos autorais da peça. Isso, claro, se dedicares esforço suficiente do teu tempo pessoal (horas, dias...) para produzires um excelente projeto. De fato, tem mesmo de ser excelente, porque o júri é tão qualificado que reserva ao seu próprio bom gosto o direito de recusar todas as propostas.

Basicamente, aguardam que um incauto bem intencionado, disposto a desperdiçar o seu talento, pague para resolver um problema que é deles.

Bom, quando há Artistas que se esforçam para oferecer Street Art, disponível para fruição gratuita de todos, no espaço mais democrático que é por excelência o lugar público, quando estas pessoas suprimem horas de sono a gastar (entre outras coisas) gasolina, tintas e tempo, fazem-no porque acreditam que do outro lado, a povoar as ruas, há GENTE CULTA, SENSÍVEL e HONESTA. Não é o caso das pessoas por trás desta intrujice de Matarraque. E infelizmente, não é caso único. 

Pior ainda é que há quem se rebaixe, sujeitando-se a participar na farsa...

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